quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

One Art
Elisabeth bishop
The art of losing isn’t hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster.

Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn’t hard to master.

Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.

I lost my mother’s watch. And look! my last, or
next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn’t hard to master.

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn’t a disaster.

—Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan’t have lied. It’s evident
the art of losing’s not too hard to master
though it may look like (Write it!) like disaster.
Mary Elizabeth Frye

Do not stand at my grave and weep 
I am not there. I do not sleep. 
I am a thousand winds that blow. 
I am the diamond glints on snow. 
I am the sunlight on ripened grain. 
I am the gentle autumn rain. 
When you awaken in the morning's hush 
I am the swift uplifting rush 
Of quiet birds in circled flight. 
I am the soft stars that shine at night. 
Do not stand at my grave and cry; 
I am not there. I did not die. 

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

“Ora e pede. Em seguida, presta atenção. Algo virá por alguém, ou por intermédio de alguma coisa doando-te na essência, as informações ou os avisos que solicites.” (Emmanuel)


Eu não sou uma pessoa carinhosa. Não sou!
Eu não sou uma pessoa sensível! Não, não...
Eu não sou uma pessoa empática de cara...
Eu sou uma pessoa de gestos concretos...
Não sou uma pessoa sentimental...
E tenho tendências enormes ao individualismo!

Se você me conhece, leu tudo isso e discordou de alguma coisa, ou mesmo de tudo isso que acabei de dizer é porque entrou em contato com a pessoa que eu não quero e tento não ser, mas que eu sei que é muito fácil ser, tornar-se ou deixar tomar conta de mim.

Sabe por quê?... Porque para mim foi e ainda é muito fácil ser a pessoa dessas características, pois é de coisas como essas que fui rodeada, foi assim que eu aprendi a ser e é assim que eu acabei devolvendo ao mundo e achando tudo isso muito normal, muitas vezes beirando, outras vezes por inteiro na grosseria... Mas como todo ser pensante que questiona, já há bastante tempo vi e percebi que isso era um bom modelo do que não ser. E eu não quero! E eu tento todos os dias ser diferente. Mas tem algo que posso dizer com propriedade – é um desafio enorme não se solidificar nos modelos que recebemos.

Eu não tenho plena capacidade de fazer essa mudança sozinha, então o que eu faço?... Eu rezo! Peço a Deus todos os dias que me ajude a ser uma pessoa melhor, uma pessoa que observa e entende o próximo, e que assim se entende.

“Assim como imagina o seu coração, assim ele é!” (Prov. C 23, V. 7) E o meu coração, eu não o vejo como eu descrevi no início desse texto, embora muitas vezes eu aja ou tenha agido assim, mas aquele não é o meu coração! Meu coração é como eu peço a Deus que ele seja, é como eu quero que ele seja: gentil, carinhoso, atencioso, empático, cativante, compreensivo, justo e cheio, cheio de amor! Porque quando Ele me olha, Ele não vê o que vida me tornou, Ele vê exatamente quem eu sou, porque Ele me formou, me conhece desde sempre. “Posso andar mais uma milha, eu sou amor! Posso orar por aqueles que me perseguem, eu sou amor! Nada pode mudar isso! Eu posso me tornar aquilo que desejo me tornar, eu sou amor e nada pode mudar isso!” (repito isso como um mantra)

Eu ia dizendo que peço a Deus que me ajude a ser quem eu de verdade sou. Hoje eu tive uma demonstração daquilo que sempre peço. O engraçado, é que “ela (a fé) se move por caminhos misteriosos.” Eu, que não quero que minha personalidade seja justificada pela minha criação, fui colocada de frente com uma pessoinha que recebeu da vida muito menos que eu, de quem a vida talvez vá cobrar desafios muito maiores quando se tratar de dar, receber e esperar o amor naturalmente. Eu, que acho que não vi ou não recebi o suficiente de afeto, vi nos olhos de uma pequenina o medo, o medo de não ser amada, de não saber o que fazer para as pessoas gostarem dela. E ela, que teve tão pouco, exigiu tanto de mim hoje. Exigiu que através daquilo que eu não tenho tanta prática, fizesse com que ela sentisse que eu confiava inteiramente nela, que ela merecia todo amor do mundo, porque de quem ela mais esperava, ela não teve!

Todos os dias as pessoas travam batalhas imensas dentro de si. Essas batalhas são invisíveis aos meus e aos seus olhos, que tão rapidamente julgam e tiram conclusões precipitadas. Eu acredito que a vida vai tomando os formatos que toma, que cada pessoa colocada no nosso caminho é colocada por uma razão - vamos aprender algo com elas! Uma hora estamos de um lado, e na mesma hora do lado oposto. Conheço pessoas, que não importa de que lado estejam, jamais vão aprender a proposta de crescimento que a vida lhes lança. Estão ocupadas demais com seus egos feridos, com suas justificativas, com seus olhares incapazes de cruzar barreiras.

Hoje eu vi que tudo aquilo que nos tornamos quando adultos pode ser resultado de algo que desejamos tanto na infância e que de certa forma nos frustramos. Que nossas decepções não nos definam. Que eu e você estejamos prontos para o abraço apertado que a vida quer nos dar pra reafirmar mil vezes: “você é capaz sim, de dar o que não recebeu; de ser aquilo que não foram com você e através disso ir de encontro com a pessoa que você quer ser e verdadeiramente é!”

segunda-feira, 30 de setembro de 2013


“How can you expect a person who was raised on a desert to swim like a fish?”
Elizabeth Bishop

Sabedoria é algo que não necessariamente nasce da mesma fonte. Ela brota dos lugares mais inusitados e se combina às mais diferentes possibilidades. Essa citação acima, por exemplo, da considerada uma das poetisas americanas mais importantes do século XX veio de encontro direto com uma das personagens mais conhecidas do brasileiríssimo Jorge Amado – Gabriela! É dela que vem aquela síndrome tão conhecida por nós, a Síndrome de Gabriela, já ouviu falar?... Bom, resume-se em “eu nasci assim, eu cresci assim...” E assim, supomos que os cidadãos que possuem a Síndrome de Gabriela também morrerão assim. Pelo simples e lamentável fato de não acharem possível, ou simplesmente não terem o menor desejo de mudança.

Existem coisas que se colocam como um impedimento para mudar: porque representam uma desconfiguração por vezes muito grande de nossas personalidades e claro, isso assusta! Mudar significa aventurar-se por terrenos desconhecidos. Corajosos são os que se propõem a pisar lá. Digo corajosos, porque sempre haverá quem diante da citação acima diga que não é necessário se tornar um peixe para ser aceito, ou gostado. Com toda certeza, mas o famoso “quem tiver que gostar de mim, vai ter que gostar como eu sou” cria uma zona de conforto enorme e por vezes perigosa. Faz com que nos sintamos à vontade para permanecermos para todo o sempre do jeito que somos. Eu não tenho pretensão nenhuma de me tornar um peixe. Não sou um, não me daria bem como um. Mas penso que as habilidades de um peixe acrescentariam tanto na minha vida de quem foi criada no deserto. Não quero para o resto da vida ter habilidades de sobrevivência que só servem para as regiões secas e sem água... Você nunca sabe o que ai encontrar por aí!

Há um programa na TV chamado “Magros versus Obesos”. É estereotipado e exagerado, mas quando vi, me propôs uma grande reflexão. Nele os participantes sofrem uma mudança chocante nos seus hábitos alimentares ruins para avaliarem se isso os faz repensar como comem e vivem. A moça de braços finos que até parecem que vão quebrar precisa comer no café da manhã porções de presunto com ovos e bacon, aquelas rosquinhas enormes e açucaradas, acompanhadas de refrigerante. E aquele cara trajando roupas que parecem terem sido feitas sob medida de tão grandes, tem que se contentar com um prato branco e grande coberto apenas de três vagens, um ovo de codorna e um frango grelhado pálido. O que eu me pergunto se os dois participantes sentiram, além da extrema dificuldade em comer o que lhe foi apresentado é o quanto era difícil para o outro comer o que eu facilmente comeria. Nenhuma das duas dietas é ideal, mas a combinação das duas poderia ajudar os dois lados.


O grande e humano prazer de aprender com o outro. De pensar fora dos nossos limites para concluir que o que é fácil para nós pode representar um grande desafio para o outro e vice versa. Mas que os benefícios para quem se aventura são tão engrandecedores, que todos fariam se soubessem disso. Tomariam formato em seus corpos que fariam seus interiores mais felizes. E a gente sabe - quem é feliz por dentro, reflete por fora. E claro, isso não deve ser porque foi dormir e acordou todos os dias iguais. Somos produto da transformação e que bom que isso se dá em contato um com os outros.
Não mostrar no feed de notícias
                
Algumas vezes, rolando meu feed de notícias no Facebook, eu excluo a atualização de várias pessoas. Os motivos são diversos: fotos de maus tratos a animais ou velhinhos e crianças; posicionamentos preconceituosos; machismos; ataques de carência; indiretas pra ex-namorado; fotos dignas de book de modelo seguidas de frases filosóficas que dizem “não sou só o rosto e o corpo, tá pessoal! Eu também tenho cérebro!”; provocações de times de futebol... Nossa! A lista é infindável. Tanto, que muitas vezes começo a checar as novidades no Face, elas quase não aparecem e eu penso: Uau, como eu tiro atualizações!

Agora a pouco eu fui fazer uma exclusão e me lembrei de quem não compartilha desse pensamento. A justificativa é “gostar de saber como as pessoas com quem me relaciono pensam, e por isso não excluo nada, vejo tudo, leio tudo, mesmo achando muitas coisas postadas uma bobagem”.

Bom, comigo é mais imediato: postou porcaria uma vez, tá fora! Não preciso ver porcaria diariamente para querer saber como neguinho pensa. Uma ou duas pérolas já me bastam! É, não afeta muita gente, mas afeta a mim!

Eu acho que sou precipitada em muitos julgamentos e isso pesa na minha decisão de exclusão. É muito parecido quando eu não gosto de uma pessoa – tenha ela me feito ou não algum mal! Se fez então, aí a guerra tá declarada, mesmo que muitas vezes, (senão todas) burramente é uma guerra que eu travo sozinha. Se eu fosse ditadora, Pinochet e Hitler ficariam no chinelo! Quando eu tenho raiva de alguém, quero que o mundo inteiro me dê razão e tenha raiva comigo! Não suporto que me venham com discurso do tipo “mas tente ver o outro lado, o lado da outra pessoa que te fez isso!”... Não quero ver lado nenhum! A pessoa me machucou! É como um desejo de apedrejamento em praça pública, tamanha a raiva!

Sabe qual a parte mais angustiante disso?... É saber a criaturinha inferior que eu me torno por pensar assim. Esse não é um texto que pretende demonstrar através dos fatos como eu tenho razão. É um texto que expõe através dos mesmos fatos, o quanto eu ainda preciso ignorar certas coisas, aprender e subir uns degrauzinhos na escada evolutiva.

Sabe aquela coisa do “Desencana disso! Dane-se que a pessoa tenha te feito isso ou pense mal de você! Simplesmente a exclua da sua vida e siga em frente”... Eu queria lá no fundo desencanar mesmo e não me importar. É como se eu quisesse ter a oportunidade de perguntar pra pessoa “o que foi que eu te fiz pra você me tratar assim?” Que fique bem claro que não é um desejo de vingança, é um desejo de retratação mesmo. Do mesmo jeito que tenho vontade de no Facebook escrever um inbox: “Por favor, caro ser humano, me diga que não é verdade que você realmente está de acordo com isso que acaba de postar! Cê tava brincando, né?”

Muitas vezes eu prefiro não saber o que certas pessoas falaram de mim por aí e quando alguém vem me contar eu pergunto: falou mal de mim?... Então não quero saber, por favor! É um comportamento parecido como não querer que isso ou aquilo apareça no meu feed. Eu super aumento as minhas reações de raiva e simplesmente não consigo só lamentar que certas pessoas sejam tão imbecis, pensem de maneira tão igualmente imbecil e saiam impunes sem que ninguém lhes pergunte “Por queeee?”...

Não que minha forma de pensar, exposta nesse texto seja um exemplo a ser seguido. Nem de longe! Talvez seja tão insano quanto tudo que eu julgo e não compreendo. Mas, essa sou eu, me despindo e admitindo o desconforto e o mal estar que me causam sentir-se dessa forma. Eu desejo que certos fatos não cheguem através de meus ouvidos a serem publicados no muro de noticiários da minha alma. Talvez esse seja um indício dela me pedindo: “Não pendura nada aqui, que você ainda não tem condições de assimilar certas coisas. Você é dona de uma cabecinha muito confusa! Milhares de palavrinhas espalhadas e que quando tentam se juntar em fala, não explicam nada e confundem todo mundo”.

Eu excluo as pessoas lá do feed (seja do Face ou da alma) e não excluo o que de mais importante tem: o sentimento com relação ao que elas fazem.

Hunf! Medo de mim!

domingo, 28 de outubro de 2012



A importância do lado “ruim” das coisas

             Dias atrás, falando com um amigo muito perspicaz e libriano, ele me lembrou das características mais marcantes deste signo. A maior e mais notória de todas talvez esteja em seu símbolo – a balança, a busca pelo equilíbrio. Mas o mesmo amigo reconheceu que muitas vezes, os nativos deste signo, ao buscar pela tão desejada harmonia, muitas vezes se descontrolam e desequilibram. Muito disso pode estar em outra característica bem marcante deles – a busca pelo belo! Os librianos tem um tino tão apurado pelas coisas belas, que muitas vezes querem pesar na balança apenas elas! Mas oras, isso é contraditório para uma balancinha, não acha?

Todas as coisas possuem importância, logo, todos os lados também são belos! Será possível então dessa forma encontrar beleza na tristeza, na saudade ou no peso? Ou será que somente a alegria, a presença e a leveza possuem seus méritos? Se acaso todos os lados não forem considerados, a tal balança ficará descompensada, chegando enfim à outra característica deles – a dúvida! A dúvida no que distribuir dos dois lados.

Talvez seja mesmo mais fácil, mais previsível, mais imposto em nossa vivência que somente coisas positivas devam fazer parte de nossa vida. Mas eu pergunto: haveria claridade, se não houvesse a escuridão? Haveria som se não houvesse o silêncio?... Logo, o que seria do positivo, se não vivenciássemos também coisas negativas?... Já consigo pensar aqui, de bate pronto que milhares de sambas não teriam sido escritos, se não fosse pela tristeza!

Falemos mais a respeito da mal fadada e indesejada tristeza - Quando eu digo da necessidade de nos sentirmos tristes, não me refiro a uma tristeza que vai te trazer uma depressão severa, 20 quilos a mais na balança, perda de emprego e pulsos cortados! É uma tristeza que dá importância às coisas – a todas elas! A tudo que as pessoas falam, comentam e pensam! Oras! Sou um ser passando minha existência nesse plano espiritual. Então, tudo que ouço é importante sim! Inclusive as coisas que permito que me deixem triste. Uma tristeza sábia, que conhece o seu tempo e a sua vez e que depois de sentida permite que eu faça melhor as minhas escolhas – quem eu quero e quem eu não quero fazendo parte do meu ciclo de vida? E por falar em vida, quem não quer qualidade na sua? Para que haja, é necessário que algumas coisas sejam separadas, que uma plaquinha com dizeres: “meu coração é uma casa com um ritmo tocando. Quem não sabe ou não quer aprender a dançar a música que toca aqui dentro, eu nem atendo a campainha” seja visualizada por todos.

Talvez, subestimemos o “ficar triste” ao aceitar ou não achar grave as coisas que ouvimos. Ao não darmos importância ao que escutamos. Dar importância é se dar importância. Eu, de minha parte me preocupo cada vez mais com a capacidade que o ser humano tem criado em não se indignar com certas coisas. Ao achar que tudo é aceitável e tudo é normal. Não raro, este mesmo ser humano se decepciona em algum momento e nem se dá conta do quanto foi responsável por aquele desfecho, por aquele permissivismo todo! - É um rir de tudo, achar graça em tudo. Porque afinal de contas, tudo é uma grande piada e a gente tem mais é que rir. Dia desses escutei uma pessoa chamando o amigo de macaco, e todos, mas todos mesmo, inclusive o negro em questão acharam engraçado! São piadas tão desagradáveis, pejorativas e desnecessárias, sobre deficientes, raças, nomes pitorescos e aí a gente é obrigado escutar que é “é tudo piada, gente!” Me assusta de verdade, essa graça toda que eu não vejo.
           
Há uma cumplicidade e uma aceitação tão grande nas pessoas que tudo de fato é uma piada. E quando eu vejo a gravidade, dou importância e fico triste com certos quadros, sou tachada de chata, literalmente de “sem graça...” Gente!!! Eu não vejo mesmo graça nenhuma nessa equipe super bem engajada em montar picadeiros enormes onde ora somos os palhaços sendo aplaudidos por nossos comentários infelizes e ora somos a platéia que alimenta essa sujeirada toda! Quando é que as pessoas vão se dar conta dos circos que armam? Quando vão perceber que trazem isso pra suas vidas em todos os aspectos, inclusive os tão delicados sentimentais?

Ao recusar a tristeza, arrastamos uma vida cheia de máscaras e fingimentos. Uma vida que tem uma alegria falsa, um não encarar de frente as coisas. Escolhemos pessoas que não nos amam, não nos valorizam e não se interessam pelo nosso interior para estarmos lado a lado, gente que literalmente faz piada dos sentimentos que temos. E vamos construir o quê com essas pessoas? O que elas vão nos agregar? O que diabos elas estão fazendo aqui do lado de dentro? Porra! Me assusta que a mulherada, goste tanto de levantar a bandeira da independência sexual, financeira e sentimental e esteja todos os dias vivendo um maldito e retrógrado “ruim com ele, pior sem ele.” Que isso, mermão?...

Não se trata de uma negatividade, de uma tristeza, de um lado ruim puro! Trata-se de uma sanidade de quem hoje caminha pelo lado luminoso da vida, mas sabe o quanto coube de escuridão pra que a claridade chegasse! De quem acredita tanto no ser humano, que se entristece sim e muito, cada vez que vê um vacilo sair de um ser que é tão capaz de fazer o bem!

quinta-feira, 11 de outubro de 2012



As pausas...

Quando eu estava na escola e fazia aula de produção de textual, as professoras sempre chamavam minha atenção para o mesmo detalhe: "Você usa muitas vírgulas, muitas reticências, não pode, tá demais!"

Ora, não foram uma ou duas professoras, foram todas elas... Logo supus que devia mesmo algo de errado haver...

Mas para mim era mais que necessário, era preciso que houvesse pausas de cá... Pausas de lá... Se minha leitura se identificava com elas, assim também era minha escrita...

Respira, pausa, reflete, ouça o som do que está lendo, saboreie os sons, como quem ouve uma música, os significados... As pausas imprimem essas necessidades!

De qualquer maneira, fui ao longo do tempo “economizando” nessas marcas e agora notando que sinto fala delas... Não tenho usado tanto... Fui esquecendo o quanto elas me encantam....

Vou então, recuperá-las... Uma a uma, mas com pausas, pois agora evidenciou-se a falta que senti delas...

Bem vindas, pausas... Uma a uma se reencontrando comigo....

domingo, 7 de outubro de 2012



A Seta e o Alvo

Pelo simples fato de você estar cansado da vida, e eu cheia dela.
Por você ver tudo em cinza e eu ver em arco-íris.
Pois você não acredita no futuro, e eu vivo a cada dia por ele.

Pelo simples fato de você não esperar nada do amor, e eu pautar nele minha vida.
Por você ter preguiça de arriscar, e eu ser paraquedista num céu cerrado de dúvidas.
Pois você não tem sentido pra viver, e eu te adotei como um dos meus sentidos.

Pelo simples fato de você ser comedido na hora de amar, e eu exagerada.
Por você ser um em vários, e eu ser várias em uma.
Pois você não quer ser feliz, e eu não tenho nada que eu queira mais.

Eu falo de amor à vida,
Você de medo da morte.
Eu falo da força do acaso
E você de azar ou sorte.
Eu ando num labirinto
E você numa estrada em linha reta.
Te chamo pra festa,
Mas você só quer atingir sua meta.
Sua meta é a seta no alvo,
Mas o alvo, na certa, não te espera.
Eu olho pro infinito
E você de óculos escuros.
Eu digo: "Te amo!"
E você só acredita quando eu juro.
Eu lanço minha alma no espaço,
Você pisa os pés na terra.
Eu experimento o futuro
E você só lamenta não ser o que era.
E o que era?
Era a seta no alvo,
Mas o alvo, na certa, não te espera.
Eu grito por liberdade,
Você deixa a porta se fechar.
Eu quero saber a verdade
E você se preocupa em não se machucar.
Eu corro todos os riscos,
Você diz que não tem mais vontade.
Eu me ofereço inteiro
E você se satisfaz com metade.
É a meta de uma seta no alvo,
Mas o alvo, na certa não te espera!
Então me diz qual é a graça
De já saber o fim da estrada,
Quando se parte rumo ao nada?
Sempre a meta de uma seta no alvo,
Mas o alvo, na certa, não te espera.
Então me diz qual é a graça
De já saber o fim da estrada,
Quando se parte rumo ao nada?

terça-feira, 29 de maio de 2012



“O não ter respeito a alguns, é procurar, como a morte, a universal destruição de todos.”
Henri Montherland

Na aula de ontem uma proposta foi apresentada aos meus alunos: escreva algo sobre uma pessoa que você admira ou sobre uma pessoa que não admira.

As opções do livro (porque livros didáticos ainda cometem essas gafes?) me surpreenderam. Eu pensei – “como assim, escrever sobre alguém que não admiramos???”

Existem pessoas que fazem isso?... Falam publicamente mal das outras? Tristemente me lembrei que sim... E que isso é de uma facilidade imensa... A facilidade com a qual certas pessoas denigrem as outras, são levianas em suas formas de expressar, e os lugares e momentos que escolhem para fazê-lo são tão ou mais incompreensíveis...

Como eu faria isso numa sala de aula?... Como vou incentivar um aluno a fazer aquilo que eu penso ser tão distante-humano?

E pensando, fui interrompida por um aluno que no auge de toda sua respeitosa e admirável experiência de vida me disse: “Eu aprendi algo nessa vida. Se não possui nada de bom para falar das pessoas, então não fale nada!”

Que pena não sermos todos assim...

sexta-feira, 11 de maio de 2012


Não que não tenha surgido nada que tenha me feito refletir nesses últimos meses. Surgiram e não foram poucas, mas estamos mesmo onde escolhemos estar e hoje escolhi estar aqui...
“A cada dia que vivo,
 mais me convenço de que
o desperdício da vida está no amor que não damos,
nas forças que não usamos,
na prudência egoísta que nada arrisca
e que, esquivando-nos do sofrimento,
perdemos também a felicidade.”
Carlos Drummond de Andrade

Da Demasia Humana - Das Coisas que eu não Faria...

Ontem um dejà vu me botou a refletir e consequentemente a escrever a respeito. Eu já havia ouvido de algumas pessoas frases do tipo “eu jamais faria isso que você fez” diante dos meus relatos de experiências vividas. Em particular essas experiências se tratavam dos longos anos que se passam ao lado de uma única e exclusiva pessoa e em outra experiência, às totais e conscientes anulações que nos causamos para viver uma história.

Ora, o tal “eu jamais faria isso” sempre me produziu uma espécie de – sou diferente de você, uma versão melhorada, portanto não faria isso que você fez. É um comentário confuso... Faz parecer que o que eu fiz foi errado, pouco inteligente, desperdício, algo de ruim, enfim. E claro, por consequência, faz parecer a autora dos atos – eu, um ser de decisões e atos inferiores aos olhos dos donos do enfadado comentário.

Eu já sabia disso, mas o dejà vu reforçou minha conclusão. Pra todas essas pessoas que tenham feito ou ainda possam fazer tal comentário a respeito da vida que vivi, eu tenho a mesma pergunta: “Como você pode saber??” Como pode saber que não ficaria todos esses mesmos ou mais anos ao lado daquela pessoa?... Como pode saber que desistiria, que mataria dentro de si tudo aquilo que sabe que é certo, só pra poder viver aquela história fadada ao fracasso só mais um pouquinho, na esperança de que desse tudo certo? A resposta, meu caro, é sempre a mesma. Um belo e sonoro: “Você não sabe!”... Não sabe, porque não viveu essas histórias, essas histórias não são suas!

Só há uma maneira de levantar o duvidoso troféu do “eu não faria isso” – Viva a história. E as notícias não são tão vitoriosas assim – porque ainda que o faça, não quer dizer que esteja livre de nunca mais repetir esse ou aquele ato.

Mas por outro lado, suas conclusões diante das experiências alheias, talvez tornem-se bem menos generalizadoras.

É, meu caro...  Somos todos demasiadamente humanos. Nossa demasia está em tantos lugares, e aqui ela reside justamente na fórmula que tantos de nós gostamos de verbalizar: a fórmula não+ia é um tanto perigosa... Porque ela te surpreende!

Mas... Eu torço, de verdade, para que sempre se surpreenda! Pra que sempre se permita fazer aquilo que tantos não fariam...

terça-feira, 17 de janeiro de 2012


As Aventuras de Petit Foucaul III - Freud Maria e o Falo Imaginário

A historinha que vim contar hoje é sobre a mais nova amiga de Petit Foucault. Primeiro, gostaria de narrar como se deu esse encontro e enfim apresentar a nova parceira.
            
     Você já deve ter ouvido falas como “Eu queria ter nascido rico!”; “Eu queria ter nascido em outra época”; “Eu queria ter nascido assim, assado, aqui ou ali” e mais um montão de blá blá blá...
           
     Foi esse querer-nascer-diferente que despertou o interesse de Petit Foucault ao observar o comportamento da analisada bola da vez. Por que existe essa negação daquilo que se é e daquilo que se tem? Porque há um desejo por algo que não corresponde à sua realidade? E todo esse questionamento surgiu diante da seguinte manifestação: “Eu queria ter nascido homem!!!”
            
     Embora aquilo tenha intrigado Petit, logo percebeu que sozinha não poderia concluir os porquês de tal afirmação, pois ela tinha um cunho de sexualidade frustrada e essa definitivamente não é a área de análise de Petit. Neste momento aproxima-se dela alguém que lhe oferece ajuda. Chama-se Freud Maria e adora analisar o comportamento humano a partir do inconsciente e da sexualidade. Perfeito!
            
     Dizia Freud Maria a respeito da citação que intrigou Petit: “Percebe quantas pessoas ao seu redor comportam-se como se fossem as donas da verdade, não aceitam não como respostas e se acuadas e questionadas rapidamente dão conta de literalmente botar no rabo de alguém? Pois é... Observe! No caso da pessoa que afirma um desejo de querer ter nascido homem, isso na verdade é uma grande frustração. O que um homem faz sexualmente falando que o difere de uma mulher?... Oras, ele tem um pênis! Que agora adiante, vamos chamar de falo. Vamos lembrar aqui, que a sexualidade para Freud Maria não é restrita, ou seja,  apenas genital. Tem um sentido mais amplo – toda e qualquer forma de gratificação ou busca do prazer. Então a sexualidade neste sentido amplo existe em nós desde o nascimento. Na menina se manifesta pelo fato de descobrir que não tem o pênis-falo, e com isso sente-se prejudicada, tem “inveja do pênis”. Ao perceber que a mãe também não o tem, passa a desvalorizá-la e nessa medida, se dirige para a figura do pai, dotado de falo e portanto cheio de poder e fascinação. O que provoca inveja não é o pênis anatômico, mas o pênis-falo, o objeto fálico, que tem o sentido de completude e de plenitude narcísicas.”

     Completa Petit, completamente entendida do assunto agora: Ou seja, existem pessoas que possuem um desejo de poder e dominação imenso e quanto não o tem, frustram-se manifestando um descarado disparo de justificativas que punem sempre o mais próximo, nunca assumindo sua culpa, porque isso em seu ver traduziria uma “impotência”. E para quem “quem queria ter nascido homem”; para quem inveja e deseja ter um falo, impotência é inadmissível, não?...

domingo, 8 de janeiro de 2012


Coincidências (?), Metáforas e... Chuva de Sapos

Você deixou de se desculpar com alguém?... — Porque essas pessoas partiram ou se distanciaram
antes que isto fosse possível?... Foi por conta do teu orgulho
e raiva, que não te permitem pedir desculpas?Há ainda pessoas
que não teve coragem e honra de se desculpar?...
Pobres seres que somos. Lançados no mundo cheio de incertezas ainda somos vítimas de coincidências inexplicáveis que tentamos explicar através da existência de um sentido oculto. Mas, nem disso temos certeza e nem mesmo é suficiente para gerar a tranqüilidade que tanto buscamos. Além do mais, a morte nos espreita impondo seu inexorável limite à nossa ilusão de eternidade. Não temos todo o tempo do mundo para fazermos o que temos ou desejamos fazer. Muitas vezes, é tarde demais.

             Os temas morte, sentido, arrependimento, sonho, desejo, solidão, chance, esperança, medo, renascimento, ódio, perdão, desculpas e culpas atravessam como dardos pontiagudos o magnífico filme
Magnólia, escrito e dirigido por Paul Thomas Anderson com música de Aimee Mann. A menção à autora da trilha sonora não é mera formalidade. O próprio diretor, no encarte do cd da trilha sonora, reconhece que seu filme é uma espécie de adaptação das músicas da compositora, como se faz com um livro. Dois momentos importantes do filme, na verdade, giram em torno de duas canções onde a música fica quase em primeiro plano. Deixaremos para mais adiante um comentário maior sobre estas duas canções.

             O filme começa com a narração de três incríveis coincidências que o narrador se recusa a aceitar que foi mero acaso. É como se tudo houvesse sido anteriormente planejado e as pessoas envolvidas tivessem desempenhado seus papéis com absoluta precisão. Todos no momento e no lugar exatos. Nem um segundo a mais, nem um milímetro a menos. O espanto causado por esta extrema sincronia leva-nos, como ao narrador, a insistir na tese de que não foi uma mera coincidência. 

             Jung (vai no Google) nos fala da sincronicidade (vai de novo!) o princípio de conexão acausal. Ou seja, dois ou mais eventos se aproximam de forma que alguma conexão entre eles possa ser estabelecida, embora esta conexão não tenha sido criada por quaisquer meios causais, por exemplo, a força do pensamento. Imaginemos. Passei o dia inteiro querendo encontrar uma determinada pessoa. A força do pensamento fez com que realmente eu a encontrasse. Esta maneira de raciocinar não está de acordo com o que Jung entende por sincronicidade, pois ele enfatiza a acausalidade da conexão entre os eventos. Por isso, ele afirma que a sincronicidade é uma coincidência significativa. Contudo, da maneira que entendo Jung, a sincronicidade não significa nada, nós que presenciamos os fatos é que significamos. Uma conhecida minha, certa vez, com dificuldades em encontrar um apartamento para alugar, passou em uma praça e, naquele exato momento, um ninho de passarinho caiu na sua frente. Segundo seu relato, naquele instante, ela teve certeza que iria encontrar um apartamento para alugar. Esta sua certeza surge de um ato interpretativo de uma experiência sincronística. Ela poderia ter interpretado o ocorrido também como um sinal de que não encontraria um apartamento ou, pelo menos, que sua busca seria longa e dolorosa, visto que o passarinho também teria perdido sua casa. O evento sincronístico simplesmente coloca frente a frente dois seres com problemas de moradia em uma espécie de solidariedade da natureza. Como esta coincidência significativa será interpretada por nós estará sujeita a todos os riscos, desvios e incertezas de qualquer processo interpretativo. É justamente aqui que residem todas nossas angústias, nossas problemáticas, nossa criatividade, nossas chances. Como recebemos os fatos, como recebemos os outros, como somos recebidos por eles? Tudo isso habitado por um sem número de processos interpretativos incapazes de criar uma certeza estável e suficientemente duradoura, embora esta possibilidade seja realmente uma possibilidade. Para lidar com isso, recorremos a infinitos esquemas de controle, subterfúgios, auto-enganos, ilusões, etc., que nossos mestres Freud e Jung nunca se cansaram de descrever.

             Após o relato das coincidências o filme prossegue com uma rápida e entrecortada apresentação dos personagens cujos destinos e estratégias de sobrevivência iremos acompanhar por quase três horas de duração. Neste momento surge a primeira música cantada por Aimee Mann. De autoria de Harry Nilsson, seu título é One e sua letra nos fala que o um é o número mais solitário que existe. Depois do um, dois é o número mais solitário que existe. Além do mais, diz também que o não é a experiência mais triste que alguém pode ter, porque um torna-se o que de fato é – solitário!. Seu último verso quase explica porque disso - porque ele é muito pior do que o dois, por se tratar do resultado da divisão do dois. O um, sonho de unidade e auto-suficiência, é dividido, diria originariamente, pela necessidade do dois, por nossa necessidade do outro. Porém, como o dois também é um número solitário, nem isso, muitas vezes, basta. O Outro não é aquele outro que imaginamos. Como dizem Levinas e Jung, o outro é sempre o totalmente Outro. Continuamos solitários, quer como um quer como dois, embora, seja possível acontecer o contrário. E acontece. Como veremos, o verbo acontecer tomará uma dimensão quase que mágica próximo ao final do filme.

             Enquanto a música One é cantada inúmeras vezes, as personagens são gradativamente apresentadas. O primeiro a aparecer é o guru sexual Frank Mackey (Tom Cruise). Autor do livro "Seduza e Destrua" que ensina técnicas para dominar qualquer mulher. "Respeitem o pinto e domem a vagina" é seu orgulhoso lema. A técnica principal é a linguagem. Através dela podemos penetrar nas experiências íntimas e nos desejos e sonhos de uma mulher. Falando coisas que ela quer ouvir, um homem pode conquistá-la. Aqui entra o problema da interpretação. A linguagem, meio que utilizamos para nos fazermos entender, é habitada, segundo Jacques Derrida, por um tal número de parasitas que a torna sujeita a inúmeros desvios e perdas. Tudo que falamos não passa de promessas, mas nada garante que as promessas sejam verdadeiras ou que serão cumpridas. Naturalmente, Frank Mackey se acha protegido de ser vítima de uma mulher que também lhe fale e toque seus desejos e sonhos. O que ele propõe é uma operação de guerra onde o homem terá sempre o controle.

             O próximo personagem é Jimmy Gator (Philip Baker Hall). Ele é apresentador do programas de perguntas "O que sabem as crianças?", onde 3 crianças são desafiadas por 3 adultos. Com 12000 apresentações em 30 anos de carreira, Jimmy Gator é a imagem da honradez da televisão. Mas sua vida real não se conforma a este ideal. Logo no início do filme, procura a filha Claudia para tentar uma reconciliação. Conta para a filha que está com câncer, mas é expulso do apartamento sob berros e xingamentos. No final do filme descobriremos porque este ódio da filha pelo pai.

             A seguir vem Donnie Smith (William H. Macy), um antigo campeão do programas de perguntas para crianças, mas que é, atualmente, um imbecil fracassado e desajeitado. Embora, tivesse dominado um grande número de informações quando criança, este conhecimento inútil em nada o ajudou na vida. Despreparado e carente, perde o emprego e se individa para comprar um aparelho de dentes, que não precisava, só para chamar a atenção do barman pelo qual estava apaixonado. Sua frase favorita é que realmente tem muito amor para dar, só não sabe onde colocá-lo.

             Earl Partridge (Jason Robards) é o produtor de televisão que protagoniza o agonizante paciente terminal que luta com suas culpas e arrependimentos. Pai de Frank Mackey, é odiado pelo filho por tê-lo abandonado aos 14 anos de idade. Sofre muito, a ponto de ter que tomar morfina, alterna momentos de inconsciência com instantes de profunda lucidez onde compartilha com o dedicado enfermeiro Phil Parma (Philip Seymour Hoffman) suas angústias e último desejo: reconciliar-se com o filho. Phil Parma, que em nenhum momento expõe suas culpas e arrependimentos, funciona com um bom ouvinte das fraquezas humanas. Sua atitude receptiva, afetiva e cuidadosa com Earl Partridge representa a compaixão pelos desencontros humanos que ele busca remediar aproximando pai e filho.

             Linda Partridge (Julianne Moore) é a jovem esposa de Earl Partridge. Casada, a princípio, por interesse, descobre, diante do moribundo marido, que o ama. Passa todo o tempo muito nervosa, agressiva, tentando reparar seus erros e traições. Tenta o suicídio, mas é salva a tempo.
             Claudia Wilson Gator (Melora Walters) é a filha do apresentador Jimmy Gator. Ferida emocionalmente, distanciada de um contato afetivo com os pais, refugia-se em seus vícios, tv e cocaína. Sente-se incapacitada de despertar amor e, por isso, afasta-se quando surge a oportunidade, pois teme que ninguém será capaz de suportar sua verdade.

             Jim Kurring (John C. Reilly) é o honesto, devotado e idealista oficial de polícia. Viúvo e inseguro, não consegue encontrar um novo amor. Sente-se humilhado quando perde sua arma. Seu lema é sempre tentar fazer o bem, ser bom. Por isso, ao se apaixonar por Claudia, é capaz de superar todas as suas tentativas de fazer fracassar o encontro.

             Stanley Spector (Jeremy Blackman) é o garoto gênio que está prestes a quebrar o recorde do programa de perguntas e ganhar o polpudo prêmio em dinheiro para a alegria de seu sempre apressado e desinteressado pai. Apaixonado pelo conhecimento e pelos livros revolta-se com a produção do programa e recusa-se a responder a pergunta que lhe daria a vitória, para desespero de seu pai.

             Estas são as personagens que ajudarão a desvelar uma gama de sentimentos dos quais somos, não apenas vítimas, mas, igualmente, seus co-autores. Todas elas se tocam em algum ponto da história, revelando suas estratégias de sobrevivência através de situações verossímeis (ou seja, situações absurdas mas possíveis de serem realizadas, a começar pelas incríveis coincidências no início do filme) e plenas de metáforas.

             Somos seres complexos. Isso é ao mesmo tempo nosso fardo e nossa riqueza, nosso desespero e nosso sentido. James Hillman em um importante texto sobre traição faz uma leitura interessante da história bíblica de Adão e Eva. Resumindo muito seus argumentos, para Hillman o fato de Eva, a imagem arquetípica da traição por excelência, ter nascido da costela de Adão, aponta para o potencial de traição e auto-traição que trazemos conosco. A todo instante Evas estão brotando de nossas costelas, gerando novas e conflituosas situações existenciais, muitas vezes além da nossa capacidade de elaboração e entendimento.

             Earl Partridge, por exemplo, alternando estados de lucidez e inconsciência, devido à morfina que tinha que tomar para suportar a dor causada pelo câncer, representa exatamente esta confusão e complexidade que nós somos. Oscilamos entre extremos de consciência e inconsciência, onde algo se apodera de nós sem sequer percebermos. Nesse momento nasce uma nova Eva inocentemente pronta a ceder à menor tentação. Alguns chamam isso de desejo; outros, de manifestações arquetípicas; tem aqueles que colocam toda a culpa em um ente chifrudo e negativo; outrora, chamavam de intervenções de deuses múltiplos. Não importa o nome. Importa sabermos que somos impotentes. Não há, porém, saída, caso contrário correríamos o risco de ter nossa vida tão calculada, tão pré-estabelecida que o resultado seria um empobrecimento generalizado. Por outro lado, isto não nos exime da responsabilidade em relação às nossas ações. De qualquer modo, a oscilação de Earl Partridge entre confissão e anestesia toca o âmago das nossas questões éticas em relação ao Outro. Dói muito reconhecer nossos erros e fraquezas. Daí a necessidade de morfina que possui o efeito colateral - o filme enfatiza isso claramente - de fazer desaparecer todas nossas características pessoais. Anestesiados, caminhamos com nossas personas, nossas máscaras, como disse Jung, achando que elas são nossa única verdade. A grande dor de Earl Partridge não era aquela causada pelo câncer, mas aquela causada pelos seus atos. Esta dor só passa através da confissão e do perdão. Por isso seu desejo e sua necessidade de falar com seu filho abandonado. De resto, ficamos no lugar do bom enfermeiro, o bom ouvidor, testemunhando e ouvindo as frases mais lúcidas e verdadeiras que, muitas vezes só a proximidade da morte nos faz ter a coragem de proferir.

             O filho abandonado, como já sabemos, é Frank Mackey, o superhomem que ensina aos homens não necessitarem de mulher. Incapaz de elaborar a morte da mãe e o abandono do pai estabelece uma verdadeira declaração de guerra contra a nossa necessidade de nos relacionarmos com o Outro. Encarna isso na mulher e faz dela o inimigo que deve, ao mesmo tempo, ser desejado e desprezado. Lembram-se? "... devemos respeitar o pinto e conquistar as vaginas!" Não há espaço para o amor, pois, no séquito de Afrodite, como muito bem retrata uma pintura renascentista, caminham, junto ao desejo, ao prazer e à alegria, a loucura, o ciúme, a inveja, o desespero, a saudade, o medo. No amor não há nenhuma garantia de reciprocidade. Posso desejar alguém ardentemente e não ser retribuído. Situação que nos leva à beira do desespero. Para evitar isso, portanto, não podemos amar. Temos que dominar, controlar, subjugar... e inventar uma história que nos ajude a convencer que estamos no caminho certo. Frank Mackey inventou uma outra história familiar, mais leve e digerível, mas falsa. Quando confrontado com a verdade trazida pela jornalista que o entrevistava, aquela fortaleza auto-suficiente desaba. Sua persona de machão começa e derreter revelando sua verdadeira face: "adoslescente-abandonado-pelo-pai-que-teve-de- cuidar-sozinho-de-sua-mãe-doente". Esta figura ainda estava viva e com muita saúde em seu interior.


             Como o filme utiliza o recurso das coincidentes sincronicidades para acelerar os acontecimentos, é justamente nesse momento em que sua alma sangra pela ferida causada pela verdade inaceitável que ele recebe a notícia que seu pai deseja revê-lo. Este encontro é um dos mais belos e intensos momentos do filme.A princípio xinga o pai e sente prazer em vê-lo sofrer. Logo depois, chorando e desesperado, pronuncia este verdadeiro oxímoro: "não morra seu filho-da-puta". 

             As histórias dos outros personagens correm por trilhas semelhantes. Donnie Smith acha que colocando um aparelho nos dentes chamará a atenção de seu amado. Rimos do ridículo da situação, mas não a vejo de forma diferente daquilo que nós todos fazemos. Se eu comprar o carro X terei sucesso. Se eu possuir aquele vestido da famosa griffe francesa vou conseguir o homem que tanto desejo. Etc., etc., etc. São truques, que muitas vezes funcionam, mas que, principalmente, ajudam-nos a esquecer de como os encontros são difíceis e instáveis. Claudia Wilson Gator, por exemplo, desesperada em busca de alguém que a ame e cuide, descobre no policial honesto a possibilidade disto acontecer. Deseja ser verdadeira. Propõe que só falem a verdade. O risco e o medo, porém, são grandes. Prefere desistir do que tentar.

             Todas as personagens passam por um crescendo de sofrimento e tensão quando, de repente, começam a cantar "Wise Up" de Aimee Mann, que fala de nossos arrependimentos necessariamente tardios, fala de nossos desejos de outrora que agora não conseguimos mais suportar. Conclui: nada disso irá parar até que tenhamos os olhos abertos.

             Mas, engana-se quem pensa que Magnólia seja um filme pessimista. Muito pelo contrário. Ele nos diz que é possível haver mudanças, que é possível o perdão, a compreensão, que os encontros são possíveis, que é possível abrir os olhos. Nos apresenta estas possibilidades através de um fato inusitado: de repente começa a chover sapos. Esta cena aparentemente absurda dá sentido e esperança ao final da história. Por vezes, é verdade, por meio de situações absurdas podemos encontrar o sentido das coisas.

             Como entender esta chuva de sapos. Mais uma vez o diretor Paul Thomas Anderson é dadivoso conosco e nos dá suas pistas. Em determinado momento aparece uma cena em que Stanley Spector, o garoto gênio, aparece estudando em uma biblioteca. Está cercado de livros de metereologia. Quando começa a chuva de sapos, ele aparece novamente, novamente estudando, e percebe o que está acontecendo. Com olhos arregalados, exclama: "isso acontece, é uma coisa que acontece"! A chuva de sapos não é da ordem do milagre, do absurdo, da impossibilidade. Existem vários relatos que se estendem até a Grécia antiga onde descrevem-se chuvas de sapos, peixes e outros pequenos animais. Se é possível chover sapos, se isso é uma possibilidade real, também é possível nós nos encontrarmos, nos perdoarmos, nos amarmos.

             Junto com a chuva de sapos, Frank Mackey perdoa seu pai Earl Partridge; Jimmy Gator e Linda Partridge são salvos de suas tentativas de suicídio; Donnie Smith arrepende-se e devolve o dinheiro que havia roubado de seu antigo emprego; Claudia Wilson Gator se reencontra com sua mãe; Stanley Spector pede ao seu pai mais respeito e carinho; Jim Kurring, o policial, não aceita a desistência de Claudia e a procura. Esta é, inclusive, a última cena do filme. Ao fundo a voz de Frank Mackey fala que se tudo isso fosse em um filme ele não acreditaria, é real. Fala mais: "o passado já era para nós, mas não nós para o passado". Só revisitando-o que poderemos lidar verdadeiramente com ele. Mas o rosto sorridente de Claudia chorando de emoção por alguém ter rompido sua barreira de medo e isolamento nos dá esperança e confiança. Que chovam sapos, muitos sapos!